Pachinko - Resenha Literária
Pachinko, da escritora Min Jin Lee, é um romance histórico e poderoso. Atravessando gerações, a autora faz isso para contar uma história de resiliência, identidade e pertencimento. Ambientado entre a Coreia e o Japão, o livro acompanha uma família coreana, de 1940 até meados de 1980, a qual foi marcada por guerras, preconceito, migração e sacrifícios silenciosos.Pachinko mergulha na complexa relação com uma cultura que está na sua linhagem familiar, mas da qual você se sente desconectado.
A narrativa principal basicamente começa no início dos anos1900, na Coreia unificada e colônia do Japão, quando uma jovem chamada Sunja engravida de um homem casado. Para salvar sua honra, ela aceita se casar com um pastor cristão que a leva para o Japão, decisão essa que muda para sempre o seu destino e o de sua família. A partir daí, a trama se desdobra por quatro gerações, revelando as dificuldades enfrentadas pelos coreanos que vivem como estrangeiros em solo japonês, mesmo após décadas no país.
Em terras estrangeiras, Sunja e sua família enfrentam uma dura realidade: preconceito constante, marginalização e uma luta diária para sobreviver e serem reconhecidos como seres humanos dignos mesmo após muitos descendentes nascerem e viverem no país. Um dos temas centrais da narrativa é a imigração. Os personagens vivem como eternos forasteiros, mesmo após décadas em solo japonês. A condição de zainichi (como os coreanos residentes no Japão são chamados) é marcada pela exclusão legal e social.
São pessoas sem pátria: não pertencem mais à Coreia, mas também nunca serão plenamente aceitas pelo Japão. Essa sensação de deslocamento permanente é um dos sentimentos mais dolorosos da experiência migratória, trazido pela autora com delicadeza e profundidade. Com isso, a autora toma liberdade para abordar o preconceito racial. Coreanos são vistos como inferiores, sujos, criminosos e até mesmo os descendentes nascidos no Japão enfrentam discriminação institucional e social. Uma das cenas mais impactantes que evidenciam esse sistema de exclusão ocorre quando o filho de Solomon, apesar de ter nascido no Japão, precisa solicitar uma autorização de residência. O garoto, que fala japonês fluentemente e vive dentro da cultura japonesa desde o nascimento, é obrigado a provar sua permanência no país onde nasceu, como se fosse um visitante temporário, um intruso. Detalhe: Depois de Sunja, nenhum filho/descendente chegou a visitar ou conhecer a Coreia, exceto Noa.
Essa exigência absurda revela como o preconceito não está apenas nas atitudes individuais, mas enraizado nas estruturas legais e políticas. Não importa o quanto se assimilem, os coreanos continuam sendo “os outros”. E isso expõe o paradoxo da identidade dos zainichi: ser considerado estrangeiro num país que já se tornou o seu lar.
O período de guerra, tanto o pré quanto o pós-guerra, exerce grande influência na narrativa. A Segunda Guerra Mundial não apenas impõe fome, destruição e medo, mas também redefine relações familiares, sonhos e oportunidades. No pós-guerra, mesmo com o Japão derrotado, o preconceito contra os coreanos persiste, refletindo que a ideia de que as guerras terminam com tratados formais é desmentida pela continuidade das feridas que elas deixam nas populações marginalizadas. Para a família de Sunja, e muitas outras famílias coreanas, a guerra nunca acaba verdadeiramente, ela apenas muda de forma.
Os descendentes de Sunja vivem entre dois mundos: são ensinados a se orgulhar de suas raízes coreanas, mas crescem falando japonês, consumindo cultura japonesa e, muitas vezes, sentindo-se distantes da Coreia. Essa tensão entre identidade herdada e identidade construída é dolorosa, especialmente quando a cultura dominante constantemente os rejeita. O livro questiona: o que significa pertencer? Somos definidos por nossa origem, nossa língua, nossos costumes, ou por como somos vistos pelos outros?
Min Jin Lee constroi sua narrativa com uma escrita envolvente, sóbria e sensível, combinando fatos históricos com uma profunda humanidade. Pachinko não oferece respostas fáceis. Mas oferece uma jornada emocional e histórica que obriga o leitor a olhar para as complexidades da identidade e da resistência
Os personagens são complexos e realistas, cada um lidando à sua maneira com as pressões sociais, o preconceito, a pobreza e as esperanças por uma vida melhor. O título do livro, Pachinko, faz referência a uma espécie de jogo de azar muito popular no Japão e serve como metáfora para o destino e a luta dos personagens, que muitas vezes parecem à mercê de forças fora do seu controle. Um dos grandes pontos positivos da obra é permitir que a cultura ocidental descubra e aprenda sobre um capítulo pouco conhecido da história: a vida dos coreanos no Japão, que sofreram (e ainda sofrem) discriminação mesmo após gerações vivendo no país.
Após visitar o país, no final de 2024, me encontrei vidrada e apaixonada por toda a cultura Coreana e sua intrigante história. Entretanto, por ser um cultura oriental, encontro pouquíssimos estudos/cursos relacionados à história desse pequeno grande país. Ler o livro (após ser influenciada pela Olivia Rodrigo e seu post durante o Lollapalooza Brasil deste ano) me realizou e ajudou a preencher o espaço que guardo para essa cultura no meu coração.E não poderia deixar de mencionar que os nomes escolhidos pelas autora não são aleatórios. Min Jin Lee usa essa simbologia de forma sutil para mostrar como cada geração tenta lidar com a mesma pergunta de formas diferentes e o caminho de vida que escolhem seguir. A tradição coreana de valorizar o significado dos nomes reforça essa ideia de que um nome pode, sim, moldar um caminho ou ser um espelho dos conflitos que esse caminho apresenta.
Sunja a protagonista é o pilar da família e possui 2 filhos: Noa e Mozasu, os quais têm destinos muito distintos, e seus nomes refletem isso.
Noa: O primogênito, tem um nome que remete à figura bíblica de Noé, o homem que sobreviveu ao dilúvio. Mas, ao invés de ser aquele que recomeça, Noa é o que mais sofre com a rejeição de sua identidade. Ele tenta apagar suas origens coreanas, desejando ser aceito como japonês, e vive com vergonha do pai biológico, um homem ligado ao submundo. A tragédia de Noa é justamente sua tentativa de negar quem é, e seu nome bíblico, contrasta com seu fim melancólico, como se carregasse um fardo que ele não consegue sustentar.
Mozasu: O segundo filho, é mais direto e resiliente. Ele aceita quem é, sem buscar se encaixar em uma sociedade que o rejeita. Trabalha com pachinko, uma indústria marginalizada, mas se torna bem-sucedido. Ao contrário de Noa, Mozasu entende que resistir e sobreviver são formas de vencer. Seu nome parece representar essa nova geração que, embora viva entre mundos, encontra uma forma própria de existir, sem pedir licença.
Solomon: Filho de Mozasu, carrega o nome de um rei sábio, outra referência bíblica. Educado nos Estados Unidos, fluente em inglês, Solomon representa uma nova tentativa de integração e sucesso, mas também vive conflitos internos sobre sua identidade. Seu nome evoca grandeza e discernimento, mas ele também enfrenta a dura realidade de que, para os japoneses, ele ainda é “o outro”. O nome, nesse caso, simboliza tanto a promessa quanto o peso da herança cultural, e a expectativa de sabedoria talvez seja mais uma pressão do que uma proteção.
Podemos ver, por meio dos nomes e dos rumos de vida, a forma sutil e impactante do processo de ocidentalização do Oriente, especialmente por meio das mudanças culturais observadas nas diferentes gerações da família de Sunja. Enquanto a primeira geração mantém práticas tradicionais coreanas( como a língua, a comida caseira, o respeito pelos mais velhos e a importância da honra familiar), as gerações seguintes começam a incorporar valores e comportamentos mais ocidentalizados, especialmente influenciados pela cultura japonesa e, mais tarde, americana.
Mozasu e, principalmente, Solomon, já se vestem de forma moderna, estudam em escolas internacionais, falam inglês e sonham com carreiras globais. No entanto, essa “modernização” vem acompanhada de conflitos internos pois quanto mais se adaptam ao mundo ocidentalizado, mais se afastam de suas raízes coreanas. Esse contraste entre tradição e modernidade se torna um dos pilares do romance, revelando como a cultura de origem resiste, adapta-se ou desaparece conforme o tempo, o espaço e as pressões sociais moldam o indivíduo.
Em resumo, Pachinko é uma obra comovente e necessária, que combina história, drama familiar e crítica social com maestria. É um livro o qual irá permanecer comigo por muito tempo depois da última página, lembrando que, mesmo quando o mundo é incerto como uma máquina de pachinko, é possível resistir e amar. Ler Pachinko foi uma experiência muito satisfatória e não consegui largar o livro por nada!
PS. A obra foi muito bem adaptada para a TV, pela AppleTV! A segunda temporada será lançada em Agosto de 2025, não deixe de conferir! ;)




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